__________________________________________________________________________________
“ São Pedro e o Castelo dos Mouros”
Publicado no Boletim Municipal de Aguiar da Beira, por Ricardo Guerra (1997)
Já nos tempos Neolíticos, os Lusitanos começaram a residir nos castros ou montes fortificados, em regra, próximo de água com serventia para os usos de vida, defesa e comunidade.
Isto foi o que aconteceu em algumas freguesias do concelho de Aguiar da Beira. Nesta critica vou focar apenas o Castro da Gralheira e toda a sua área envolvente.
Considero extremamente importante que se conheça o concelho onde se reside, embora reconheça que muitas pessoas não demonstrem esse interesse, gostava de despertá-lo, tendo como ponto de partida este local maravilhoso onde está bem patente a antiguidade.
Antes de mais, gostaria de realçar um ponto importante: a localização deste castro. Em mapas concelhios anteriormente realizados, e até no actual roteiro turístico, o castro é colocado numa zona intermédia entre as Quintas do Rio Dão ( Dornelas) e Pena Verde. Mas na verdade esta localização está errada, pois este monte fortificado situa-se junto à divisão entre a freguesia de Forninhos e a freguesia de Pena Verde. Como habitante da freguesia de Forninhos, e conhecedor dos limites desta, por ajuda do actual presidente da junta e de alguns antigos pastores que passavam os seus dias neste local, verifiquei que o limite passa do lado norte da antiga povoação e do referido castro. Sendo assim, o castro e a cidade morta da Gralheira são pertença da freguesia de Forninhos e não de Pena Verde como é frequentemente dito. Também é possível verificar, no território de Pena Verde, algumas antigas construções espalhadas, pertencentes à mesma povoação. Se depois disto ainda existirem duvidas, desafio uma ida ao local, a fim de esclarecimento.
Sensivelmente a 1,5 km da povoação de Forninhos, perto de um marco geodésico, no alto dos montes de São Pedro, existe um local que nos obriga logo a reflectir sobre os tempos de conquistas primitivas. Trata-se de um local onde funcionou, em tempos, uma povoação antiga, como podemos verificar através de ruínas de casas de forma circular, quadrangular ou oblonga. Existem também, perto do local, lagariços primitivos, que são facilmente identificáveis. Esta povoação é composta por cerca de 40 habitações primitivas, onde a maioria estão aglomeradas junto ao cemitério, o chamado cemitério dos Mouros.
Há pouco tempo atrás aquando da abertura de um caminho no sentido de Pena Verde, junto da povoação e em frente ao local da extinta capela de São Pedro, foram encontradas urnas em pedra maciça, algumas com o formato do corpo humano no interior e outras autênticos caixões de pedra. Era frequente na altura em que a povoação estava em actividade, proceder-se à incineração dos cadáveres. Foram inclusive encontrados alguns ossos humanos. Encontram-se umas quatro ou cinco urnas à superfície, havendo muitas mais cobertas pelo solo, gestas, tojos e outro tipo de vegetação.
Apesar de adorar visitar o local, ao mesmo tempo, sinto uma desilusão enorme por observar estas urnas danificadas e completamente abandonadas. Diz-se que algumas urnas inteiras foram levadas do local, servindo actualmente, de bebedouro para animais. Aquando da passagem da máquina, ouviram-se estrondos por baixo desta, o que comprova a existência de outras urnas. Têm sido encontrados vários objectos neste espaço, como moedas e pedaços de jarros.
É no espaço deste cemitério, que se erguia a extinta capela de São Pedro de Verona. É possível encontrar restos de telha e algumas pedras à superfície, evidenciando o verdadeiro local desta capela. As restantes pedras foram levadas do local por habitantes das duas freguesias. Ainda há quem se lembre de ver o portal da capela de pé.
Muito se fala, por estes lados, de São Pedro de Verona e toda a sua história. Saliento que a esta ermida vinham romarias de muitos povos circundantes, onde se destacam os povos da Freguesia de Pena Verde, de Dornelas, de Forninhos e Valagotes. Como anteriormente, a localidade de Forninhos pertencia ao extinto concelho de Pena Verde, era frequente haver “guerras” entre os dois povos para ficar com a pertença da capela, acabando esta por ser demolida. Há 50 anos atrás ainda era possível observar parte das paredes da capela. São Pedro de Verona foi dominicano, martirizado em 1258, tendo sido canonizado por Inocêncio IV. Aquando da reparação da igreja paroquial e construção do cemitério, foi trazida para Forninhos, a imagem de São Pedro, permanecendo nesta igreja alguns anos. Contam-se histórias de medo que esta imagem causava às crianças da freguesia. Mais tarde, a imagem foi levada da freguesia, para outra localidade e concelho diferente. Está presentemente no Seminário de São José em Fornos de Algodres.
Trata-se de uma imagem relativamente grande, de pedra Ançã, que facilmente se destaca de todas as outras presentes no Seminário. Apesar do seu estado degradado, pois é muito antiga, faz parte do património histórico do concelho, da paróquia de Forninhos e do antigo concelho de Pena Verde.
Ao fundo da povoação, virado para sul, ergue-se no alto de um penedo, a Cadeira da Rainha. Trata-se de uma forma de cadeira gravada na própria rocha, virada para um vale, onde se pensa ser o local de trabalho do povo, devido à abundância de água. Quem se senta nesta cadeira, avista os campos abandonados, que outrora forneciam frutos para os habitantes.
Depois de descrever a zona envolvente, olhamos agora para o majestoso Castro da Gralheira. Ergue-se num alto, onde por entre penedos enormes, são visíveis muralhas esbarrondadas, de pedra solta, com blocos dispostos em fiadas irregulares. Está localizado num local de difícil acesso, o que permitia à população uma defesa segura. A vista é magnifica, sendo possível observar várias povoações que circundam a freguesia de Forninhos. Até à pouco tempo o castro ainda possuía um portal de acesso. Diz-se que tinha umas inscrições num dos lados.
Com o passar dos tempos, o património vai-se alterando quase inevitavelmente. Pois, muitas pedras vão sendo levadas para fora do local. É urgente que se termine com isto, e para tal, é necessário dar alguma atenção a este lugar.
Desde a altura da abertura do caminho, que o local se encontra ao abandono, passando o mato a “habitar” este. Procedendo-se à escavação deste local, com certeza que se encontrariam objectos de grande valor arqueológico, que contribuiriam para a melhor compreensão da vida dos nossos antepassados. Este, como outros castros do concelho, são pouco ou nada divulgados, mas constituem um grande tesouro do concelho de Aguiar da Beira “ainda por descobrir”.
Para os mais aventureiros, que desejam visitar o local, aconselho um caminho que parte do recente parque de merendas de Forninhos, no alto dos Valagotes. É possível ir de carro, mas o jipe é aconselhável. Se o tempo não for obstáculo, uma caminhada pedestre ou um passeio de bicicleta permitirá certamente uma melhor observação da paisagem e consequente aproveitamento do tempo.